segunda-feira, 22 de junho de 2009

Verniz estalado, um estalo encarnado

Olhava para o verniz estalado, sentada na cadeira quase confortável do dentista, ouvindo gargalhadas no fundo do corredor cortando a música triste e melódica a ritmar o batimento da chuva nas vidraças da enorme janela á sua frente.
Deixava-se embalar e desligava-se de um estímulo e de outro enquanto escolhia um tema menos desafiador da sua felicidade.
Esperava numa demora infindável que os assuntos pendentes e sem jeito se acabassem, que as cordas vocais se enrolassem e elas se pudessem decidir a voltar ao seu trabalho na hora marcada, uma vez que fosse. Para não poder voar com os salpicos de chuva colados ao vidro e fingir que existem soluções para um sorriso maior.
Vaguearam corpos e copos e espelhos e caminhos por entre as suas mãos, por entre a sua mente agora.
Contemplava as flores de papel mal coladas na parede, dando um ar de quarto de bebé ás paredes da sala de espera, vazia e taciturna.
-Catarina, pode entrar.
Desta vez olhando para as suas mãos de cor natural, via o verniz brilhar, escorrido uniformemente por cada unha; o sol manhoso cansado de produzir os seus 40º diários, recostando-se em cada nuvem passageira, destapando-lhe a vista.
-Não, ainda não está perfeito.
(Não duvidou. Um sorriso perfeito não se constrói.)

E pudesse eu fugir de outra forma, sem que o meu verniz estalasse, na ultrapassagem das ramagens imponentes da sala de espera azul e intacta.
E pudesse eu olhar de outra forma a chuva que se evapora nos raios de sol que me queimam agora.
E pudesse eu amar-te de outra forma, sem que o meu coração fosse esbofeteado a cada passo na direcção oposta à tua trança de menina com um sorriso perfeito.

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