sexta-feira, 6 de novembro de 2009

3/4 de um pesadelo cor-de-rosa

Descobri com surpresa quase nula o significado dos cogumelos cor-de-rosa no fundo de ecrã.
Tu gostas daquelas gomas fofas em forma de cogumelos distorcidos pela standartização e é neste ponto que estabeleço uma relação. Não fosse este seria outro igualmente subtil e sem propósito algum. De algum modo acabo sempre por relacionar o que quer que seja a ti. Seja por oposição, semelhança ou cumplicidade. Ou só porque sinto falta de.
Começo a desconfiar que o meu destino é remar contra a maré e quase sempre quase conseguir quase tudo.
Sinto falta das jantaradas até altas horas na casa do Algarve. A casa cheia de gente, da minha gente e da gente da minha gente. Sinto falta de estar preenchida até á última gota de sangue a circular por mim e de sentir todas as gotas a atropelarem-se efusivamente dentro de mim.
Achei que tinha escolhido as gomas cor-de-rosa para me tentar forrar por dentro em tons harmoniosos e conseguir ter uma visão pastel dos meus sapatos rasgados e muito sujos cada vez que desse um passo rumo a alguma coisa. E afinal, acho que as escolhi por serem as mais bonitas e doces, porque tu és assim. Porque eu nem gosto de gomas, independentemente da cor. Sou tentei estar próxima.
Eu tento sempre tentar ser mais, ir mais longe e chegar mais perto. E... E não sei. Não sei o que consigo porque a minha cabeça é um emaranhado de nós, as lágrimas escorrem-me teimosas pela cara sem pedirem permissão e eu fico chateada com elas e aborrecida comigo por não as saber parar antes de começarem.
Escolhi as gomas grandes na tentativa de me entupir. Talvez me pudesse engasgar e impedir o oxigénio de passar pelas minhas ou suas vias respiratórias. Eu acho que são tuas, cada parte de mim.
Tudo o que comi foram gomas grandes, fofas e cor-de-rosa. Duas ou três. Uma por cada característica chegava e ainda assim sinto que alguns Woompa Loompas fugiram da Fábrica de Chocolates e me puseram chumbinhos pelo umbigo, enquanto estava distraída e injectar-me com os dramas das séries.
E é assim que me sinto a maior parte do tempo, numa série que não foi feita para mim, encaixada ás pressas num papel que ficou sem personagem, com um peso sobre os ombros, sobre os olhos, dentro do estômago e do fígado e do coração, por cada braço e perna e dedos e narinas e nos dentes e nos joelhos, um peso, um peso que não é meu, mas que se entranhou em mim, por mim.
E tudo o que vejo nos teus olhos tristes e brilhantes quando olham para mim é o esforço de me quereres ajudar. E tu esforças-te e esforças-te por continuar a abraçar-me. Mas estás tão farta das águas que correm no meu rosto. Que explodes como um fulminante, vezes e vezes sem conta. Baixinho e de voz serena. E eu oiço-te gritar, arrancar-me a pele até chegares ao meu coração. Então num sopro de lucidez obrigas-lo a bater novamente e basta-me olhar para ti para querer que ele nunca pare de bater.
Eu só queria que o esmagasses. Que o agarrasses com força por entre os teus dedos finos e pálidos e o calasses, porque não suporto o som estridente e vibrante que ele faz propagar-se em voltas infinitas e inebriantes na minha cabeça.

E quando abro os olhos, enjoada da doçura colada ao céu da minha boca, desespero que me tomes nos teus braços e me beijes até me sufocar, porque não saberia viver de outra forma.

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